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I
Festival Carioca
Há
dois meses recebi o convite do Eduardo Cunha, enxadrista e
presidente da FEXERJ na época em que atuei na CBX, hoje candidato a
vereador na Cidade do Rio, para participar de um evento de promoção
do xadrez escolar. Também me falou de relançar a revista Aventuras
da Mente, que havia editado no início dos anos 90.
Eduardo
esta especialmente interessado no Projeto Nacional de Xadrez Escolar
e na possibilidade dele ser extendido ao Estado do Rio e me pediu um
artigo sobre o tema e uma palestra para os interessados no xadrez
escolar. Avisou também que haveria um pequeno aberto de xadrez rápido
em paralelo e que me esperava para uma revanche da partida que
jogamos na década passada onde rondei o desastre e acabei me
salvando.
Escrevi
o artigo, com a ajuda dos professores Tonegutti e Wilson, e contei
com as informações do Ministério do Esporte, através do
Professor Sólon, para preparar a palestra, mas à medida que o
evento se aproximava ficava cada vez mais claro que o torneio
reuniria muitos escolares e não seria nada pequeno.
A
notícia da participação do Vescovi na página da FEXERJ (www.fexerj.com.br)
e o número recorde de participantes inscritos com antecedência,
anunciavam uma dura competição. Quando cheguei ao Rio, na sexta,
fui recebido pelo Ricardo Barata, com informações sobre a
participação de mais 3 GMs: o cubano Neuris Delgado que esta no
Rio disputando um torneio, o uruguaio Andrés Rodrigues que hoje
reside em São Paulo e o nosso Darcy Lima, que apesar da troca de
acusações com a FEXERJ, fez questão de emprestar seu brilho ao
evento.
A
lista de inscritos era quase inacreditável, com mais de 500(!)
enxadristas, dos quais 5 GMs. Tinha esperança de que muitos não
comparecessem, mas isto não ocorreu e no sábado começamos, na
Hebraica, com um bom atraso e com 319 enxadristas no aberto.
Já
era noite alta quando terminou o escolar, em grande festa e muitos
prêmios (inclusive um computador sorteado) e iniciou minha palestra
que adentrou a madrugada. O xadrez carioca teve, e tem, diversos
projetos de xadrez escolar, com riquezas pedagógicas diversas, mas
nenhum conseguiu manter-se por muitos anos nem atender mais que
algumas dezenas de escolas. As perspectivas abertas pelo Projeto
Nacional de Xadrez Escolar despertaram muito interesse e mesmo que a
ajuda material do projeto não seja significativa, num estado rico,
o reconhecimento do xadrez pelos Ministérios da Educação e do
Esporte, como instrumento de desenvolvimento pedagógico e social,
é fundamental para embasar o seu desenvolvimento. Ao envolver a
federação, complementando a atuação dos educadores, Barata
espera dar as condições de sustentabilidade ao projeto.
Voltamos
no domingo cedo esperançosos de terminar a tempo de ver a final
contra a Argentina, mas à medida que nos aproximávamos da ultima
rodada esta se desvanecia. Os sete que chegaram com 5 em 5
mostravam-se em 3 grupos de forcas. Primeiro vinha Giovanni, do alto
de seus 2648, depois os 4 GMs com forças pouco díspares e dois MFs
com excelente atuação. O emparceiramento foi duro com o Darcy e
lhe deu o Giovanni. Para mim as pretas contra Andrés, para o Neuris
o teoricamente mais fraco Teixeira enquanto o Diego foi buscar o
Wagner com 4,5.
Depois
de uma série de escaramuças assinei a paz com Andrés, enquanto o
Neuris batia o Teixeira numa partida de altos e baixos e o Diego
superava o Wagner depois de sofrer um pouco. Ficamos então
divididos entre escutar os pênaltis do Brasil x Argentina e
assistir o eletrizante final Lima x Vescovi.
Vescovi
é muito criativo e mostrou talento desde muito cedo. Tem se mantido
consistentemente como melhor jogador da América Latina nos últimos
anos (Cuba quer organizar um match dele com Lenier para dirimir esta
questão...) e era favorito e preferido disparado dos assistentes.
Darcy evoluiu quando já não era tão jovem e sua profunda preparação
teórica é respeitada por todos, pois sempre descobre, e aproveita,
com maestria, as deficiências de seus adversários. Sua
popularidade entre os enxadristas cariocas parece ter sido abalada
pela acusação pública que fez a Milos, Leitão e Vescovi de serem
mercantilistas e de não defenderem seu país, quando as negociações
para compor a Melhor Equipe Brasileira de Todos os tempos e vencer o
Pan de 2003, falharam.
Após
uma abertura equilibrada a partida parecia encaminhar-se para o
empate quando Giovanni começou a mostrar ambições excessivas e
logo caiu em difícil posição. Como Darcy jogava tão bem quanto
lentamente, o ping parecia inevitável e se haveria tempo para o
mate ou não passou a ser a questão. Quando a última peça das
pretas, a dama, estava para ser removida do tabuleiro Giovanni
acusou a seta, gerando segundos de ansiedade. Pela dura letra da
regra Darcy perdera e Vescovi era o campeão, mas as respostas
simples nem sempre servem. De longe víamos que Darcy explicava
alguma coisa sobre peças caídas e nosso bom árbitro Salomon
hesitava, sem poder respirar.
O
que passava pela cabeça do Giovanni nestes segundos? O prêmio? As
diferenças com o Darcy? A responsabilidade de ser o melhor e
defender a imagem dos enxadristas? A cobrança dos pênaltis? A
ansiedade dos fãs amontoados? A ética do enxadrista?
Após
infinitos instantes Giovanni, para nossa surpresa, estendeu a mão e
decretou o empate. Darcy apertou sua tábua da salvação, Salomon,
sem o caminhão nas costas, pode respirar e Neuris, que havia
derrotado a esposa na quinta rodada depois de ter ficado perdido,
saltava abraçando-a sem acreditar nas voltas da vida.
Normalmente
quando termina um torneio temos só um vencedor, mas quem olhar bem
a foto dos organizadores e dos três primeiros com seus troféus terá
dificuldades em descobrir o campeão. Neuris foi ouro, com todas as
honras, e demonstrava toda sua alegria, o jovem Diego não conseguia
conter sua felicidade (nem de sua família) pelo melhor resultado de
sua carreira tê-lo colocado no meio dos GMs enquanto Darcy agarrava
seu troféu como Alex a Copa América conquistada aos 47 do segundo
tempo e até se permitiu um longo abraço em seu velho adversário
Eduardo Cunha. Este por sua vez aproveitou um descanso no meio da
campanha e pode celebrar tanto o sucesso do evento como seus 5
pontos, um deles com requintes de beleza, só tendo perdido para o
Vescovi. Barata por seu lado, depois da FEXERJ ter organizado uma série
de caros eventos que não chegaram a motivar seus federados,
celebrava a imensa participação, especialmente do interior, e não
cansava de anunciar delegações e enxadristas das menos conhecidas
cidades do interior fluminense.
Giovanni
ficou sem troféu. Ele provavelmente nunca mais pensará nisto, ou
talvez, vez por outra, se arrependa do gesto. Difícil saber. O que
sim sei é que o combalido xadrez brasileiro é carente destes
arroubos de cavalheirismo e fica-lhe eternamente agradecido, pois
ninguém que assistiu a cena pôde ficar indiferente.
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